Ao contrário do que muitos estudos apontam, novas tecnologias não roubam trabalho das pessoas, mas ampliam seu escopo

Os empregos de hoje são mais movidos por máquinas e orientados por dados do que foram no passado. E, como havia sido previsto por muitos estudos sobre o futuro do trabalho, quanto mais as empresas adotam robótica e inteligência artificial (IA), mais elas percebem que praticamente todas as suas funções podem ser redesenhadas. Porém, será que a tecnologia está mesmo roubando os empregos das pessoas?

Ao contrário do que muitas pesquisas previam, à medida que as máquinas assumem tarefas repetitivas e o trabalho que as pessoas fazem se torna menos rotineiro, exigindo mais habilidades humanas de resolução de problemas, comunicação e interpretação. As funções, portanto, estão rapidamente estão evoluindo para o que a Deloitte chama de superempregos – ou superjobs, no termo original.

Novas tecnologias conquistam empresas

De acordo com o estudo Tendências Globais de Capital Humano 2019, da Deloitte, 41% dos RHs no mundo todo estão usando amplamente automação. Faz todo sentido, afinal o mercado de tecnologias, como a automatização de processos robóticos (RPA), está crescendo 20% ao ano e deve atingir 5 bilhões de dólares até 2024, segundo dados do MarketWatch.

Entre os entrevistados da Deloitte, 26% já usam robótica, 22% usam AI e 22% também usam tecnologias cognitivas. E o uso ainda deve se espalhar: 64% dos entrevistados preveem crescimento em robótica, 80% em tecnologias cognitivas e 81% em IA.

Com esse aumento todo na adoção, o nível de “medo” e incerteza também está crescendo. Apenas 26% dos entrevistados afirmam que suas organizações estão “prontas ou muito prontas” para abordar o impacto dessas tecnologias, o que sugere que elas estejam agora começando a entender a escala e as enormes implicações envolvidas na integração entre pessoas e automação por meio da força de trabalho.

Tecnologia está mesmo roubando os empregos?

Para a pesquisa, a resposta para essa questão é negativa. “Ainda que alguns possam ser eliminados, nossa visão é que muitos mais estão se transformando”, afirma o estudo.

Como justificativa, a consultoria lembra que a taxa de desemprego permanece baixa nos Estados Unidos e o mercado de trabalho está em guerra por novas e críticas competências em todo o mundo. Além disso, apenas 38% dos entrevistados para o estudo dizem que esperam que a tecnologia elimine postos de trabalho em suas organizações nos próximos três anos. E, além disso, apenas 13% acreditam que a automação deve eliminar um número significativo de cargos.

O mais interessante, no entanto, é que o estudo revela que o valor da automação e da inteligência artificial não está na capacidade de substituir o trabalho humano por máquinas, mas na possibilidade de ampliar a força de trabalho e permitir que seja reformulada em termos de solução de problemas e criação de novos conhecimentos. Esse é o grande desafio de desenvolver talentos.

Em 2019, enquanto 62% dizem estar usando automação para eliminar o trabalho transacional e substituir tarefas repetitivas, 47% estão ampliando as práticas de trabalho existentes para melhorar a produtividade e 36% estão reinventando o trabalho.

Muitos entrevistados também estão dobrando o reskilling: 84% dos que dizem que a automação exige reskilling relatam que estão aumentando o orçamento para reciclagem e treinamentos – 18% caracterizaram esse investimento como “significativo”.

O quadro que se desenha com essas descobertas é que, à medida que as máquinas substituem os seres humanos em tarefas rotineiras, os empregos passam a exigir novas combinações de competências e capacidades humanas. Isso cria a necessidade de as organizações reprojetarem as funções para acompanhar o ritmo.

Como surgem os superempregos?

No job design tradicional, as organizações criam funções fixas e estáveis ​​com descrições de cargo e, em seguida, adicionam posições de supervisão e gerenciamento no topo. Quando partes de trabalhos são automatizadas por máquinas, o trabalho que permanece para os seres humanos é geralmente mais interpretativo e orientado a serviços, envolvendo solução de problemas, interpretação de dados, comunicação e escuta, empatia e atendimento ao cliente e trabalho em equipe e colaboração.

No entanto, essas competências high-level não são fixas como nos empregos tradicionais e estão forçando as organizações a criar posições e funções mais flexíveis, que sejam menos rígidas e possam evoluir.

Esses novos tipos de trabalho, que têm vários nomes como “gerente”, “designer”, “arquiteto” ou “analista” – estão evoluindo para o que a Deloitte chama de superempregos.

Uma pesquisa mostra que os trabalhos com maior demanda hoje – e aqueles com a mais rápida aceleração nos salários –  são as “funções híbridas” (“hybrid jobs”, no original), que reúnem competências técnicas, incluindo operação de tecnologia e análise e interpretação de dados, com soft skills, ou competências comportamentais, em áreas como comunicação, serviço e colaboração.

No conceito de superemprego, a tecnologia não apenas muda a competências que o trabalho exige, mas também transforma a natureza do trabalho e do emprego em si.

Superjobs exigem a amplitude de competências técnicas e comportamentais das funções híbridas, mas também combinam partes de diferentes trabalhos tradicionais em funções integradas que aproveitam os ganhos significativos de produtividade e eficiência que podem surgir quando as pessoas trabalham com máquinas, dados e algoritmos inteligentes.

Por fim, a criação de super-empregos exige que as organizações pensem sobre o design do trabalho de novas maneiras. As tarefas e o trabalho devem ser reprojetados para combinar os pontos fortes da força de trabalho humana com máquinas e plataformas.

Esse, afinal, é um desafio substancial para todos os líderes de RH e que exige novas ideias e altos níveis de colaboração com toda a empresa, incluindo TI e finanças.