Veja as vantagens e desvantagens de ser ousado na sua gestão de pessoas e aplicar a política de quatro dias de trabalho

Já pensou em ter uma semana de quatro dias de trabalho, ganhando os mesmos rendimentos do modelo de cinco dias? Quem nunca, certo? O movimento que já vinha ganhando força pelo mundo foi impulsionado nos últimos anos.

Isso parece loucura, mas a mudança para uma semana de trabalho de quatro dias tem alguns ângulos e potenciais beneficiários. Em primeiro lugar, espera-se que, com a medida, os funcionários possam reduzir o estresse, a fadiga e o esgotamento.

E, para os empregadores, estudos mostram que os trabalhadores podem ser tão produtivos ou mais em 35 horas quanto em 44, isso porque durante o expediente acabam se distraindo menos do que o usual e estão mais descansados, acelerando a produtividade.

Diante dos benefícios comprovados, organizações e até governos já pensam em adotar a semana de trabalho de quatro dias. Na Nova Zelândia, durante a crise da Covid-19, a primeira-ministra, Jacinda Ardern, levantou a possibilidade de encurtar a semana de trabalho como forma de dividir empregos, incentivar o turismo local, ajudar no equilíbrio entre vida profissional e familiar e aumentar a produtividade.

Como é a semana de trabalho de quatro dias?

Trata-se da redução de jornada de trabalho de cinco para quatro dias. No entanto, alertam os especialistas, uma semana de trabalho de quatro dias não deve ser confundida com uma programação extensa de trabalho durante esse período. Eles destacam que os benefícios dessa política não serão observados se o empregador colocar uma carga horária excessiva nos dias úteis.

Uma verdadeira semana de trabalho de quatro dias exige que funcionários de tempo integral trabalhem cerca de 35 horas em vez de 44 – no caso da legislação brasileira cuja carga horária semanal é de 44 horas. Lembrando que a semana de quatro dias sempre foi um tópico popular no discurso do trabalho flexível, mas, até então, poucas eram as organizações pelo mundo que, de fato, adotaram o sistema.

A escritora e colunista do The Guardian, Vivienne Pearson, relatou os benefícios pessoais desse tipo de prática ao jornal britânico: “Ter um dia da semana disponível significava que eu nunca tinha de fazer ligações pessoais ou agendar consultas ao dentista durante o horário de trabalho. Não precisei esticar o intervalo para o almoço para cortar o cabelo ou fazer compras. Eu estava motivada para não perder tempo com longas conversas”.

No relato, ela acrescenta que, graças à tecnologia, o trabalho está se tornando cada vez mais flexível. No caso da escritora, teve de fazer uma escolha entre qualidade de vida e corte nos rendimentos. “Tive a sorte de poder cobrir minhas despesas com 30 horas de trabalho em vez de 38”, explica.

Benefícios ao adotar a política

A reviravolta do mundo do trabalho mudou o cenário restritivo das organizações com relação a essa política. Se até o home office era um tabu para muitas empresas, quem dirá a semana de quatro dias de trabalho.

A flexibilização do ambiente de trabalho, acentuada no isolamento social, descortinou os benefícios dessa prática. Pense: semanas de trabalho mais curtas reduzem o número de faltas (absenteísmo) por doença, assim como atrasos justificados como a ida a médicos e dentistas. Ademais, um dia a menos de trabalho no escritório representa um ganho nas despesas da organização com água e luz, por exemplo.

Portanto, embora a ideia soe estranha num primeiro momento, é possível que pessoas trabalhem menos com o mesmo salário, melhorando  resultados financeiros do empregador. Abaixo, detalhamos outros benefícios desse tipo de prática:

Bem-estar do funcionário

O aumento de condições de saúde mental na população mundial é uma realidade acentuada após a pandemia. Meses de ansiedade, com contato restrito de colegas, amigos e familiares, elevaram custos das empresas com saúde mental.

Portanto, quaisquer medidas que protejam a sanidade dos trabalhadores precisam ser seriamente consideradas. Este é o caso da redução de um dia na jornada de trabalho. Com isso, colaboradores teriam mais tempo para se recuperar de uma semana estressante, liberando energia para buscar outros hobbies e interesses.

Uso mais eficiente do tempo

Os funcionários gastam menos tempo em tarefas ineficientes, como reuniões, e são menos propensos a se distrair com mídias sociais ou pausas excessivas.

Satisfação do empregado

Com menos estresse e um maior equilíbrio entre vida pessoal e profissional, trabalhadores felizes se envolvem mais com o trabalho. Esse sentimento de pertencimento no trabalho  carrega também mais motivação e criatividade à organização.

Colaboração

A ênfase na eficiência tende a aproximar as equipes e as áreas, pois há menos tempo a perder com disputas e os objetivos de toda a equipe são mais focados.

Benefícios ambientais

A semana de trabalho de quatro dias representa menos pessoas se deslocando entre suas residências e ambientes de trabalho, o que reduz de forma crítica a pegada de carbono do planeta.

Isso sem falar na diminuição do uso de ar-condicionado dos escritórios, o que também reduz os níveis de dióxido de carbono (CO2).

Menos custos indiretos

Se todos os funcionários estão fora do escritório um dia por semana, isso reduz todas taxas de manutenção do escritório, especialmente eletricidade.

Mais inovações

Ao encorajar novos métodos de economia de tempo, colaboradores estão mais propensos a estudar e trazer inovação à organização.

Barreiras para implantação do benefício

Se faz tanto sentido, por que ainda não temos uma semana de quatro dias? Alguns pensadores como Paul Lafargue (“The Right to Be Lazy”, publicado pela primeira vez em 1883) a Bertrand Russell (“In Praise of Idleness”, de 1932) concluíram que resistimos a redução do horário de trabalho em face de evidências de apoio – e nossos próprios desejos de mais lazer – por causa da moralidade arraigada do trabalho

Para eles, a classe trabalhadora está extremamente apegada à ideia de que o trabalho árduo é virtuoso. E faz sentido. Muitos de nós já pensamos ao menos uma vez que mãos ociosas são perigosas e as pessoas com mais tempo livre não levam à sério o trabalho.

Portanto, uma das barreiras para implantação desse benefício, por incrível que parece, está na própria moralidade das pessoas. Mas isso por si só não explica essa resistência que se prolonga por mais de um século. Vejamos mais um dado histórico.

Durante a Grande Depressão, nas décadas de 1920 e 30, nos EUA, a semana de 30 horas foi anunciada como uma forma de reinserção de cidadãos desempregados e subempregados ao mercado de trabalho. A ideia do governo à época era de dividir o trabalho entre mais trabalhadores, assim todos teriam um pouco de renda. Mas o conceito não foi muito bem aceito por aqueles que tinham trabalho, afinal, isso resultaria em cortes salarias.

Mas, agora, temos novos motivos para considerar semanas de trabalho mais curtas. As razões para empregadores implantarem essa política se tornaram atraente graças a pesquisas que comprovam o aumento de produtividade no novo sistema.

Desvantagens

Apesar de todos os benefícios ilustrados na reportagem, empresas precisam também sopesar as desvantagens desse tipo de prática. Afinal, nem todo tipo de negócio está preparado para adotar a inovação de gestão de pessoas.

Mão de obra não utilizada

Um estudo sobre a redução da semana de trabalho da Holanda, analisado no jornal “The Holland Times”, revelou que 1,5 milhão de pessoas queriam trabalhar mais horas, mas não conseguiram.

Difícil adaptação à mudança

Alguns trabalhos levam tempo para se adaptar à mudança. Na França, alguns trabalhadores estão trabalhando nas mesmas horas de qualquer maneira – a única diferença é que eles recebem horas extras por isso.

Embora isso ajude os trabalhadores, pagar horas extras é apenas mais uma despesa para a empresa, além de já estar pagando potencialmente por um terceiro “dia de folga”.

Os benefícios não podem ser estendidos a todos

Alguns setores exigem uma presença 24 horas nos sete dias da semana ou outra programação semelhante, tornando uma semana de trabalho de quatro dias impraticável.

Cases de empresas que adotaram a política

O Perpetual Guardian, uma empresa de serviços financeiros com sede na Nova Zelândia, é talvez um dos principais estudos de caso da semana de trabalho de quatro dias.

Um projeto-piloto implantado pela organização em 2018 incluiu levou todos os 240 funcionários a passarem de uma semana de trabalho de cinco para quatro dias, mantendo seus salários. Dois pesquisadores foram contratados para fazer a análise de dados dessa experiência e o que eles encontraram mostra um apoio positivo para esse tipo de política:

  • O estresse diminuiu 7%;
  • A satisfação geral com o trabalho aumentou em 5%;
  • O equilíbrio de vida pessoal x trabalho aumentou de 54% para 78%.

Em agosto de 2019, foi a vez da Microsoft Japão resolver investir na ideia da redução em um dia da jornada de trabalho, como destacado na reportagem do G1. Além disso, outras medidas foram tomadas concomitantemente: as reuniões foram encurtadas para, no máximo, 30 minutos e as pessoas foram incentivadas a se comunicar online em vez de presencialmente.

Após testar o modelo de quatro dias úteis por semana em um país famoso pelo excesso de trabalho, a Microsoft do Japão informou que o faturamento por funcionário aumentou 40% em comparação com o mesmo mês do ano anterior.

Ademais, nove em cada dez funcionários disseram preferir a semana de trabalho mais curta. E houve alguns benefícios colaterais adicionais também, incluindo redução de 23% no uso semanal de eletricidade no escritório e redução de 59% no número de páginas impressas.

Case de sucesso no Brasil

No Brasil, ainda são poucos casos de organização que adotaram a medida. A única empesa que anunciou a adoção da política foi a startup Zee.Dog, que trabalha no mercado pet – a política foi adotada pela empresa no início de 2020.

Funcionários dos escritórios da empresa em Shenzhen (China), Madri (Espanha), Rio de Janeiro e São Paulo foram convidados a não trabalharem às quartas-feiras. A iniciativa, como destacado pelo CEO da organização, Felipe Diz, à Forbes Brasil, visava aumentar a produtividade e melhorar a saúde mental dos colaboradores.

“A ideia é incentivar que as pessoas usem as quartas-feiras para recarregar as baterias, passar tempo com a família, resolver coisas pessoais: é quase um jeito de forçar, no bom sentido, uma produtividade maior nos outros dias, para que o work-life balance seja melhorado”, explicou à época Diz.

E deu certo! A Zee.Dog cresceu durante estes tempos de pandemia, as lojas offline representaram 5% do faturamento da empresa, mas as vendas pelo aplicativo cresceram 60% entre fevereiro e março e entre abril e março, houve mais um crescimento de 20%.

Agora que você já sabe os principais benefícios e desafios da implantação da jornada de trabalho semanal de quatro horas, que tal se aventurar nas tendências de RH no mundo pós-pandemia?