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O RH deve acompanhar essas movimentações dos talentos bem de perto.

Empresas e universidades estão mais conscientes de que a formação dos talentos 4.0 depende em grande parte da capacidade que elas terão de intensificar e aprofundar parcerias entre os negócios e a academia. Como afirma Ira Kalish, economista-chefe global da Deloitte, a Califórnia é inovadora porque tem algumas das melhores universidades do mundo. E a percepção dessa necessidade de trabalho conjunto vem aumentando inclusive no Brasil, país em que isso não foi bem visto durante décadas, principalmente nas instituições públicas. O que mudou? Praticamente tudo.

O que mudou na formação de talentos?

Carlos Gilberto Carlotti, professor pró-reitor da Universidade de São Paulo (USP), explica essa mudança de forma simples: “Até pouco tempo, formávamos na graduação pessoas que teriam determinadas profissões”, afirma. “Hoje, formamos pessoas para profissões que nem sabemos ainda quais serão. Formamos possibilidades”, diz ele.

Para o pró-reitor, a eficiência desse novo tipo de formação está diretamente ligada ao entendimento das demandas do novo mercado. Ele afirma que a USP mais do que nunca tem trabalhado parcerias com as empresas. “Antes havia medo dessas parcerias, mas entendemos que a academia precisa ir além da publicação de papers”, afirma.

“Durante muito tempo, a academia se eximiu de perguntar à indústria o que ela estava esperando”, afirma VanDyck Silveira, CEO da Trevisan Escola de Negócios. “Mais do que nunca, é preciso entender que tipo de competências a indústria precisa, quem ela quer contratar”, afirma. Para o CEO, as instituições de educação precisam abandonar a postura de fornecedoras de talentos para formar junto com as empresas o talento 4.0 que elas estão buscando.

A notícia é especialmente boa para o RH, que durante tanto tempo enfrentou praticamente sozinho o desafio de identificar e desenvolver competências essenciais para os negócios, que muitas vezes eram negligenciadas pela formação acadêmica.

E tem mais: A formação profissional, que há mais tempo é voltada para as demandas de negócios, está ainda mais atenta para a necessidade de compreender a alteração dos perfis profissionais que serão demandados pelas empresas no futuro. É o que afirma Ricardo Terra, diretor regional do Senai. “Somos a escola da indústria e temos de entregar valor para essas empresas”, afirma.

Para isso, a instituição que oferece desde educação profissionalizante até graduação e pós-graduação tecnológicas criou um grande laboratório aberto da indústria 4.0. “São chãos de fábrica reproduzidos dentro da nossa estrutura em que as empresas podem trazer e utilizar novas tecnologias”, explica. Dessa forma, novas necessidades são compreendidas e desenvolvidas na prática.

Novas competências para a indústria 4.0

As novas competências que serão demandadas pela transformação da indústria 4.0 ainda não estão totalmente claras, mas as instituições de ensino, em parceria com as empresas, vêm tentando identificar e desenvolver as principais delas.

O interessante é que essas instituições também perceberam a relevância das competências comportamentais, que tradicionalmente eram desenvolvidas apenas nas empresas, mais uma vez sob a responsabilidade do guarda-chuva de RH. Entre as soft skills mais demandadas estão hoje criatividade e trabalho em equipe, por exemplo. “Visão global, compreensão do negócio da empresa e do ambiente de negócios também são importantes”, afirma Terra, do Senai. “O que era desejável agora passa a ser fundamental. ”

Uma grande mudança que houve na chegada dos novos profissionais ao mercado de trabalho é que agora eles já precisam chegar com um portfólio de experiências – e não mais com um portfólio de potenciais impactos que podem trazer para a organização. A distância entre saber e fazer praticamente desapareceu porque as empresas precisam ser mais ágeis, quebrar silos, ter uma comunicação mais eficiente.

Não é à toa que a capacidade de trabalhar de forma colaborativa entre diferentes grupos de negócios é mais uma competência em alta. “O futuro é hoje, não é mais o que vai acontecer daqui a vinte anos”, afirma Silveira, da Trevisan. Toda essa disrupção obviamente gera muita ansiedade, tanto em profissionais iniciantes quanto nos mais experientes. “Na escola, aprendemos a responder perguntas”, diz ele. “Hoje, no entanto, o mais importante é desenvolver a capacidade humana de formular questões que não são triviais”, afirma. “É preciso sair da obviedade. ”

Educação básica ainda é uma barreira

Um problema em que tanto a formação profissionalizante quanto a acadêmica esbarram é a formação básica dos futuros profissionais. “A grande dificuldade do Senai são as bases da educação brasileira”, afirma Terra. “É muito difícil, no ambiente da educação profissional, trabalhar sem uma fundamentação sólida que permita que um avanço mais rápido”, diz ele.

Silveira, da Trevisan, concorda. “As pessoas chegam à educação superior com furos de matemática que precisam ser reemendados”, explica. “Muitas vezes a empresa precisa remendar isso quando contrata o profissional”, diz ele. A solução, que parece ainda distante, seria dar ênfase muito maior ao Ensino Fundamental e Médio.

As declarações deste post foram coletadas durante os painéis do Deloitte Industry Transformation Cycle 2019, realizado em São Paulo.

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