Ser trans, principalmente no Brasil – o país com o maior índice de homicídios de pessoas transsexuais, segundo a ONG Transgender Europe – não é nada fácil. O preconceito, a violência e a exclusão podem estar em qualquer lugar – na família, na sociedade e, inclusive, nas empresas: ainda hoje, a maioria das empresas carrega um preconceito que resulta na “falta” de vagas para pessoas trans no mercado de trabalho.

Isso é um problema muito sério: o trabalho, para alguém que possivelmente não tem apoio familiar, é normalmente a única fonte de renda e a única maneira do indivíduo se sustentar. Então, como podemos aumentar a diversificação nas empresas e dar oportunidades a minorias que sofrem com o peso do preconceito, como a comunidade transgênera?

Cenário das pessoas trans no mercado de trabalho

Renan Batistela, especialista em Treinamento e membro do comitê de diversidade da VAGAS.COM, explica que a tendência das empresas de ignorar a história de opressão sistêmica de minorias é uma grande parte do problema. “Acredito que primeiramente as organizações precisam ser um pouco menos criteriosas nos processos seletivos”, diz. “Em muitos processos a diversidade já cai por terra na fase da triagem, de forma que a empresa simplesmente ignora o legado histórico racista, homofóbico e transfóbico no nosso país”.

Até para quem conseguiu um emprego, a situação não é ideal: dados do instituto Center for Talent Inovation mostram que 61% dos membros da comunidade LGBT precisam esconder sua identidade de gênero ou sua sexualidade no trabalho.

Por isso, o problema em questão não se trata apenas de contratar funcionários trans, mas de criar um ambiente onde essas pessoas se sintam seguras e respeitadas. “O que acontece em algumas empresas é que até há o movimento de diversidade, mas não o da inclusão.

Trabalhar D&I é reconhecer que cada indivíduo tem suas peculiaridades e no caso das pessoas trans não é diferente. “É de extrema importância que, se uma empresa se dispõe a contratar pessoas trans, faça um trabalho prévio de conscientização/sensibilização com todos os seus colaboradores, explicando sobre vieses inconscientes, pontuando o que já é proibido por lei, mas, acima de tudo, passando uma mensagem de respeito ao próximo”, alerta o especialista.

Falta de apoio

Apólo Roman Schmeing, 17, trabalha em uma gráfica e distribuidora como editor e divulgador. Conseguiu a vaga por meio de indicações e, sendo um homem trans, sofreu com o preconceito no ambiente profissional logo no início. “Na empresa, satirizavam o fato de eu ser trans, me tratavam no feminino e pelo nome de registro”, conta. Essa é a realidade de milhares de pessoas trans trabalhando ou procurando emprego pelo País.

Apólo, nascido na cidade de Embu das Artes (SP), afirma que, acima de tudo, o respeito é fundamental para a inclusão de trans no mercado de trabalho. “Prestamos o serviço igual de pessoas cis, então devemos ser tratados da mesma maneira”, reflete.

Levando em conta as dificuldades que a comunidade precisa enfrentar no setor profissional, o jovem enfatiza a necessidade de preparo de profissionais e empresas: “O essencial deveria ser um departamento em cada empresa”, afirma. “Um maior número de órgãos de apoio ao público trans seria muito bom”.

Apólo sugere que órgãos de apoio se preparem para ensinar esses indivíduos a lidar com o emocional e a rejeição, como se portar em entrevistas de emprego, preparar um bom currículo e como lidar com preconceito ou agressão (algo que, infelizmente, é muito comum). Também pensa em campanhas de adesão de funcionários trans na empresa como uma atitude importante para tornar o ambiente mais diverso e inclusivo.

Como incluir trans no mercado de trabalho

Nessa mesma linha de pensamento, Renan destaca ações que empresas devem tomar para realmente aumentar a diversidade no Recrutamento e Seleção e causar uma mudança benéfica para a população trans no mercado de trabalho. “É preciso ter ações afirmativas para trazer essas pessoas para as empresas e dar condições para que se desenvolvam”, explica.

Achar que todos esses indivíduos já estão prontos, graduados e cheios de experiências é fechar os olhos para uma realidade na qual, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), 90% de pessoas trans estão em situação de rua e de prostituição e certamente não por opção.

Para a maioria branca, cis, hétero, masculina e não-deficiente que em geral controla boa parte das empresas, um processo de autoeducação é essencial. Afinal, muitos não vivem a realidade de alguns de seus potenciais funcionários. “Se uma empresa tem a intencionalidade genuína de contratar pessoas trans [ou outras minorias], ela precisa, primeiro de tudo, estudar para saber como essas pessoas funcionam, quais são suas necessidades e pensar em como pode se adaptar para recebê-las”, esclarece Renan.

Ainda há um longo caminho pela frente, mas os tempos estão mudando, mesmo que lentamente. Em 2018, um estudo do LinkedIn descobriu que 78% das companhias priorizam diversidade na hora de contratar novos  funcionários. Todavia, 38% dos empregadores têm dificuldade de encontrar candidatos diversos.

Transempregos

Mesmo assim, ações de inclusão fazem toda a diferença para transformar o mundo em que vivemos. Um exemplo é a plataforma Transempregos, criada em 2013 por Maite Schneider, Márcia Rocha, Laerte Coutinho e Letícia Lanz.

A Transempregos tem como objetivo incentivar a inclusão de pessoas trans no mercado de trabalho. Além de ser um grande banco de dados de vagas e currículos, onde indivíduos e empresas podem se cadastrar, a também trabalha com ações, como capacitações, recrutamentos e palestras por todo o Brasil.

O jovem Apólo sonha em se tornar antropólogo forense desde os 6 anos de idade. Pretende iniciar a faculdade em breve, começando por biologia. Sabe que enfrentará dificuldades indo atrás de sua carreira dos sonhos devido à identidade de gênero: “As pessoas trans meio que têm que sempre provar ao dobro que são capazes para obter os mesmos lugares e benefícios que as demais”, desabafa. Mas Apólo sabe quem é e reconhece suas habilidades, professando: “Meu gênero não interfere na minha competência profissional”.

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