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acompanhe o terceiro artigo do nosso especial de Diversidade e Inclusão de LGBTs

Na segunda-feira (24/06), tivemos aqui na VAGAS outro evento especial em nosso espaço para compartilhamento de informações, o Trocando Ideias. E esse foi mais um dia muito importante para a empresa, graças aos colaboradores Ed e Renan, que gentilmente se dedicaram a horas de pesquisas e somaram o seu conhecimento sobre a diversidade e inclusão de LGBTs, para um bate-papo enriquecedor sobre o assunto, com o tema: “LGBT+: 50 anos saindo do armário”.

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Ed e Renan iniciaram a apresentação mostrando alguns números impactantes que encontraram sobre o assunto. Entre eles, dois pontos que chamaram muito a atenção em relação ao mercado de trabalho: 90% das pessoas trans vivem da prostituição por falta de desenvolvimento e oportunidades e apenas 10% desse grupo trabalha de forma registrada. Triste, não é mesmo?

Contexto

Segundo o Grupo Gay da Bahia, instituição mais antiga de apoio aos LGBTs no Brasil, há no Brasil aproximadamente 20 milhões de gays, 12 milhões de lésbicas e 1 milhão de pessoas trans. Muita gente e muitas histórias de luta e nem sempre de glória. 

Há muita gente que ainda passa por situações de preconceito e não conseguem sair do armário. E foi esse o intuito da palestra deles no Trocando Ideias, ir mostrando definições,  exemplos, evolução, o momento em que estamos na atualidade e trazendo mais clareza para o todo o público interno sobre LGBTs em geral.

Renan e Ed são gays e já “saíram do armário” há muito tempo. Cada um teve uma experiência diferente ao relevar isso para a família, amigos e colegas de  trabalho. E com base nessa vivência, nos deram uma entrevista exclusiva com suas visões e perspectivas para o futuro, além de terem dado uma dica muito importante para vocês leitores seguirem. Confira:

 

De frente com Ed e Renan 🙂

 

Vocês já se sentiram discriminados no mercado de trabalho?

 

Renan: “No meu caso, não diretamente. Porque eu sou cisgênero, o que é bem diferente de um transgênero, em que muitas vezes a aparência física não acompanha o nome e que com certeza essas pessoas enfrentam muito mais barreiras. Mas ao mesmo tempo, eu nunca pude ser eu mesmo dentro de algumas empresas em que trabalhei, não podia falar que eu ia sair com o meu namorado no final de semana, por exemplo, e para mim esse é um tipo de discriminação, especialmente quando fui militar da Força Aérea Brasileira, quando  eu tinha que ficar escutando muitas piadas. Mas como escudo, buscava me aproximar dessas pessoas que eu considero cruéis auxiliando-as com o meu conhecimento”.

 

Ed: “Já passei por duas situações que me marcaram: uma em que fui intervir em uma briga dentro da empresa, até então sem saber que se tratava de um casal composto por um homem e uma mulher. Ao questionar se o rapaz trabalhava na companhia e pedir algumas vezes o seu crachá de identificação, ele o jogou na minha cara grosseiramente perguntando se eu queria também o seu telefone. Na minha opinião, isso não seria feito se ele não soubesse que eu era gay”. 

A segunda situação foi relacionada a um outro emprego, eu tinha um cargo de gestão e fui advertir um funcionário. Ele não soube lidar com a “bronca” e contestou falando que eu era uma bichona. Para a minha sorte, nas duas situações pessoas que considero especiais me deram todo o apoio e ambos que causaram essas situações homofóbicas foram desligados após apuração dos casos”.

 

  • E sobre os 90% das pessoas trans  que estão na prostituição, o que vocês acham que gerou impacto nessa estatística?

 

Ed: “Eu acho que no caso delas é a falta de acesso, o receio em participar de entrevistas, medo do preconceito. São muitos os empecilhos que uma pessoa trans enfrenta. Muitas vezes ficam sem base nenhuma, são expulsas de casa, não conseguem frequentar a escola, ficam sem apoio e acabam não conseguindo evoluir no âmbito profissional”.

 

Renan “Sem contar que a maioria das  pessoas trans tem uma evasão escolar gigantesca, têm uma família que as abandona e isso gera uma grande barreira no emocional e no preparo da pessoa para a entrada no mercado de trabalho. Quando algumas empresas começaram a abrir programas voltados a trans, essa falta de preparo para o mercado de trabalho era sempre muito questionada”.

 

  • Vocês já se depararam com alguma situação de empresa, ambiente ou pessoas que não aplicavam nenhuma ação relacionado à diversidade e inclusão?

 

Renan: “ Olha, eu trabalho na VAGAS há mais de 8 anos e nas empresas que passei anteriormente não ouvia falar sobre diversidade e inclusão no mercado de trabalho em relação a LGBTs, o foco era mais em pessoas com deficiência ou negros. Na minha percepção, isso vem mudando ao longo dos últimos 4 anos, no máximo. 

Empresas de telemarketing sempre foram grandes apoiadoras, inclusive permitindo que pessoas trans utilizem nome social.. Hoje, sim, sinto que as coisas estão mudando, mas o caminho será mais longo para a população trans. A impressão que eu tenho é que os cases que vemos no mercado não retratam a realidade, pois mostram  uma pequena parcela de pessoas que fizeram suas transições para trans depois que já estavam consolidadas em suas carreiras, e isso não é o retrato oficial do país”.

 

Ed: “Falo aqui novamente sobre as mulheres trans, para elas ainda há uma grande barreira no mercado de trabalho, pois muitas vezes as empresas começam a fazer ações voltadas para este público, mas não encontram qualificação e desistem de contratar. Então aqui vem uma questão de responsabilidade social: mais do que apenas abrir vagas seria de fato inserir essas pessoas no mercado através da contribuição em sua qualificação, considerando que são pessoas que tiveram pouca ou nenhuma oportunidade de competir igualmente com os outros candidatos.”

 

  • Do ponto de vista de vocês, qual é a proporção de evolução da sociedade em relação ao preconceito desde a época de Stonewall, que gerou toda a mobilização das paradas LGBTs lá em Nova York?

 

Ed: “ No cenário mundial a questão é muito delicada. Vi ontem na TV que em 69 países ser gay ainda é crime, em alguns lugares até com pena de morte. Na Rússia, por exemplo, você não tem pena de morte para quem é gay, não fala que é proibido ser, mas você é preso se fizer “propaganda”, ou seja, aparentar ser, trocar afeto em público, se assumir publicamente.

Mas a evolução com a lei que criminaliza a LGBTfobia no Brasil, por exemplo, é um grande avanço. Foram anos de luta e 18 anos de tramitação da lei no Congresso sem sucesso. Os grupos ativistas LGBT+ acionaram STF que então decidiu apreciar o pedido e resolver este tema agora em 2019.”

 

Renan: “ Eu acho que de lá pra cá evoluiu muito no âmbito de conscientização. É algo que eles gritaram lá e vai ecoando aqui e em outros lugares com questão do tempo. As pessoas ganharam voz e lutam por seus direitos desde então, a lei que o Ed mencionou acima, pode ser um impacto da revolução feita lá em Stonewall”.

 

  • Vocês acreditam que as novas gerações são menos preconceituosas?

 

Renan: “ Sim, eu vejo pela minha irmã, que é muito mais nova do que eu. Na escola em que ela estuda, pais gays já levam os seus filhos e tudo ocorre de forma muito natural. Até mesmo quando fui contar para ela sobre a minha orientação sexuall, ela não entendeu o porque eu precisava contar, sendo que para ela já era algo natural. Mas ainda há uma questão religiosa que dificulta a aceitação, independente da geração. A questão é bem delicada, mas impacta. A internet ajuda muito, pois hoje há canais no YouTube e as pessoas de modo geral tem acesso fácil à informação. Além disso, as novelas, de um tempo pra cá, já começaram a trazer personagens LGBTs e isso indiretamente colabora para o entendimento da população”.

 

Ed: “Uma coisa bacana que temos hoje e que não tínhamos há alguns anos é a representatividade. As figuras gays e trans famosas no passado eram retratadas apenas como caricaturas, ridicularizadas, estereotipadas. Hoje há uma representação e espaço mais adequados, como por exemplo assistir a Pabllo Vittar na TV em programas de audiência nacional. Também há representação de LGBTs na política, na música, nas novelas, no esporte etc. Sendo assim, a geração LGBT+ de hoje já consegue atrelar o que vê por aí com o seu possível sucesso ou simplesmente se sentirem representadas.

No caso de novelas que o Rê falou, é legal porque impacta pessoas que se consideram mais “conservadoras” e, mesmo que não concordem, isso gera a discussão, e discutir já é algo rico”.

 

  • E para finalizar, o que vocês acham que o pessoal da VAGAS vai levar como aprendizado da palestra de vocês?

 

Renan: “ Eu espero que as pessoas possam refletir. Porque infelizmente, isso fica lá embaixo na lista de prioridades de todos, frente a tantas coisas do dia a dia. Por exemplo, quantas vezes vocês, que estão nos entrevistando, pararam em frente ao computador para fazer uma pesquisa sobre o assunto? Eu também não fazia, comecei a estudar de uns 3 anos pra cá, além de ter aprendido muito com a pesquisa que fizemos para compartilhar com vocês. 

Se as pessoas forem para a casa e pensarem mais sobre o assunto, para mim isso já é um ganho. Ouviu um comentário que não tem nada a ver? Corrija, pois muitas vezes isso pode acontecer por pura ignorância. Nada como uma boa conversa. A briga foi necessária lá em 1969, mas hoje uma conversa pode melhorar o mundo”.

 

Ed: “As pessoas indo para a casa com interesse em saber mais, se aprofundarem sobre o assunto. Ouvindo mais sobre as nossas histórias, mesmo a do Rê e minha não sendo tão caótica, frente a outros. Despertar mesmo reflexões e provocações nas pessoas. Temos que romper os preconceitos até dentro da nossa comunidade LGBT, imagina fora. É a partir da conversa e de pequenos passos que faremos as grandes mudanças. O segredo é construir pontes, é tudo uma questão de empatia”.

 

E fechando esse bate-papo maravilhoso, Ed e Rê deixaram um recado:

“Você se colocar no lugar do outro muda o mundo. Empatia é o que pode melhorar e trazer mais evolução para tantas batalhas e conquistas”.

E para comemorar a evolução, embora saibamos que o caminho ainda é longo, #tevebolo.

Gostou? Amanhã tem mais novidade sobre o assunto no blog do VAGAS for business e sobre a contratação de LGBTs, especialmente transsexuais.

1 Comment

Veridiana Paes de Barros
26/06/2019

Entrevista muito importante nesses tempos sombrios…
Parabéns!!!!

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