Como o RH pode amenizar o impacto da volta do trabalho aos profissionais mais vulneráveis

À medida que a Covid-19 ainda não foi contida, mas as atividades econômicas retomadas, profissionais do grupo de risco da doença correm perigo. Esses trabalhadores vulneráveis têm um duplo receio: de serem contaminados com o vírus durante o exercício de suas atividades, ou de seus nomes serem os primeiros a constar na lista de cortes de funcionários para enxugar as despesas das organizações.

Esses profissionais enfrentam grandes medos e dilemas nesse momento. Se de um lado querem ter suas vidas protegidas, do outro, receiam ter sua estabilidade econômica abalada. Não é à toa a preocupação desse grupo. Os gastos médicos representam uma boa parcela das despesas de uma organização e eles também viram muitos colegas desse grupo de risco serem demitidos logo após o anúncio da pandemia.

A área de gestão de pessoas tem, portanto, um grande desafio pela frente para equilibrar esses dois fatores no programa de retomada, idealizando uma política que abranja tanto aspectos físicos como psicológicos para proteger os mais vulneráveis.

Quem são os profissionais do grupo de risco?

De acordo com informações divulgadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), pertencem ao grupo de risco da Covid-19 portadores de doenças crônicas como diabetes e hipertensão, asma e indivíduos acima de 60 anos.

Em um estudo publicado no British Medical Journal (BMJ) , os pesquisadores avaliaram 113 pessoas que morreram e outras 161 que se recuperaram da infecção na cidade de Wuhan, na China, onde a epidemia foi deflagrada. Na pesquisa, ficou constatado que 48% dos falecidos tinha pressão alta e 21% possui diabetes. A idade média entre os falecidas era de 61 anos.

Embora não sejam abordados em profundidade no estudo, outros problemas são relacionados a complicações em decorrência do novo coronavírus, tais como enfermidades hematológicas, doença renal crônica, câncer e obesidade. A OMS também coloca as mulheres gestantes no grupo de atenção.

Como os testes estão longe de ser universais, é provável que os relatórios oficiais subestimem a extensão da pandemia, mas é claro que os adultos mais velhos correm maior risco de possuírem ou já terem as doenças graves relacionadas à Covid-19.

Vulnerabilidade nos empregos

Ao mesmo tempo, milhões de trabalhadores com 65 anos ou mais de idade na economia pré-pandêmica não conseguiram trabalhar em casa. A principal barreira foi o conhecimento tecnológico desses profissionais. Se para profissionais acostumados com as novas tecnologias já foi difícil a adaptação forçada ao home office, imagina para quem não navega facilmente entre o mundo off e online.

Dada essa dificuldade, muitos profissionais nessa faixa etária foram, inclusive, demitidos nos primeiros dias pós-pandemia. Mas do ponto de vista de mercado de trabalho, os profissionais idosos ou outros do grupo de risco da Covid-19, não estão sozinhos. Negros, profissionais liberais e trabalhadores com baixa qualificação engrossam a comunidade dos vulneráveis, isso porque eles atuavam em indústrias que foram fortemente afetadas pela crise como o comércio varejista e o turismo.

Um relatório divulgado pelo Bureau of Labor Statistics dos EUA, antes da pandemia, já revelava a dificuldade do trabalho a distância para esses grupos. De acordo com o estudo, dos trabalhadores que atuavam home base, apenas 25,5% eram acima de 65 anos; 7% negros e só 6% tinham completado os estudos até a oitava série do ensino fundamental.

Preconceitos aflorados

Soma-se a todos esses medos um novo problema que surgiu com a pandemia: o preconceito contra alguns grupos de risco. As fake news nas redes sociais e a intolerância das pessoas diante do isolamento social levou muitos a discriminarem pessoas mais velhas, moradores de periferia e até profissionais de saúde.

Não raro, víamos pessoas reclamando dos idosos circulando nas ruas das cidades, ou de pessoas da periferia que, dada a situação de moradia deles, também não conseguiam seguir o modelo de isolamento social.

Assim, é prioridade dos líderes de RH na pandemia levar todos esses elementos em consideração no programa de retomada para que esses danos sejam atenuados. Por isso, antes de começar o planejamento responda às seguintes perguntas:

  • Os trabalhadores mais velhos e outros grupos de risco desejam retornar à força de trabalho? Sua saúde ou novos regulamentos permitirão? Será necessário algum programa de reabilitação?
  • Se esses trabalhadores desejarem voltar ao trabalho, eles estarão sujeitos a algum tipo de discriminação?
  •  Como esses profissionais se reajustam ao local de trabalho após períodos isolados?
  • Há algum programa de reciclagem digital para profissionais que não conseguiram trabalhar a distância no período de pandemia
  • Existe flexibilidade para permitir que trabalhadores retornem em regime de meio período?
  • No caso de gestantes, há algum programa especial para elas antes e logo depois do parto?

Além dessas questões, leve ainda em consideração essas duas dicas que separamos para você:

Invista na conectividade geracional

Os idosos e pessoas com baixa qualificação estão melhorando suas habilidades tecnológicas e ganhando experiência usando plataformas on-line. Antes dessa pandemia, foi documentado que 75% das pessoas com mais de 65 anos ficam on-line todos os dias.

A motivação e as oportunidades para aprender estavam crescendo e, em seguida, o distanciamento e o abrigo social criaram um momento de “afundar ou nadar de vez” para muitos usuários relutantes ou não qualificados. Portanto, leve isso em consideração no programa de retomada investindo nessa conectividade geracional e até cultural entre os profissionais de sua organização.

Bem-estar físico e psicológico

Entramos nessa pandemia temendo os efeitos negativos do isolamento social, em especial, a falta de conexões sociais. A covid-19 lançou luz sobre doenças psicológicas que já vinham se acentuando há tempos, tais como ansiedade e depressão.

Inúmeros sites de notícias e recursos concentram-se nos riscos e consequências da desconexão social e apresentam estratégias para combater o isolamento. Não deixe essa peteca cair na hora de planejar a volta ao trabalho nas “novas condições”. Invista em programas de bem-estar físico e psicológico que podem ajudar as pessoas em vulnerabilidade a recuperarem fôlego na retomado do trabalho.

Se você se interessou por esse artigo, leia também uma matéria com dicas de como lidar com a saúde mental no programa de retomada.