Do debate entre saúde financeira e física ao uso de novas tecnologias e abordagens, veja quais serão os desafios dos gestores de pessoas na nova realidade

A pandemia do novo coronavírus interrompeu o ritmo das organizações e incentivou a reorganização das funções de líderes de RH na pandemia. À medida que ajustavam as políticas corporativas às práticas de distanciamento social, muitos se depararam com dilemas de ordem humana e tecnológica que, até então, não tinham sido apresentados.

A Covid-19 funcionou, de certa maneira, como o combustível necessário para acelerar transformações no local de trabalho. Isso exigiu que muitas organizações, que sequer cogitavam home office ou dar mais autonomia aos funcionários e fazer investimentos em tecnologias remotas, tivessem de rever seus planos de gestão de pessoas. Não por acaso, muitos destacam que a real transformação digital do mundo corporativo se deve à pandemia.

Passado esse momento de ajuste, quais são as preocupações dos líderes de gestão de pessoas no mundo pós-coronavírus? De que forma essa transformação impactará o local de trabalho e as relações humanas? E como se preparar para o que virá?

Neste artigo, vamos expor os principais pontos do Futuro do Trabalho abordados por líderes de RH na pandemia e de que forma seus papéis ganharam relevância neste “novo normal”.

Gestão de pessoas em evidência

O isolamento social e suas consequências expuseram a importância dos líderes de RH na pandemia. Em poucos dias, eles lideraram a reorganização da força de trabalho, ajustando possíveis erros e acelerando medidas que se mostraram frutíferas.

Essa forma ágil de agir no caos colocou a função de RH no radar de importância, visibilidade e influência dentro das empresas. As funções de gestão de pessoas se tornaram as mais procuradas por sua capacidade de controlar danos, elaborar planos de contingência e supervisionar a complexidade da gestão de pessoas; tudo isso sem abalar a cultura da organização.

“Nosso papel humano foi mais valorizado. Ficamos mais próximos de todos e fizemos parte das rodadas de discussões nas mais variadas esferas dentro das empresas”, observa Antonio Augusto Araujo, coordenador de aquisição de talentos das empresas não financeiras do conglomerado Alfa. Na visão do executivo, o RH mostrou à organização que, para o Futuro do Trabalho, gente e gestão devem caminhar juntos. “Não há negócios sem pessoas e, a nosso ver, a crise fortaleceu esta máxima”, enfatiza.

Desafios para os líderes de RH na pandemia

Dentro desta perspectiva, para se manter na linha de frente das organizações, os líderes de gestão de pessoas terão de repensar o ambiente de trabalho e apoiar seus colaboradores para essa retomada, também chamada por alguns especialistas de nova era de resiliência.

Em um primeiro momento, a função de RH precisará concentrar seus conhecimentos nas realidades críticas de negócios, específicas para o período de recuperação, como remuneração, estímulo à cultura da empresa, gerenciamento de desempenho e promoção e saúde mental e física do colaborador. Os líderes de RH devem garantir um entendimento nos complexos requisitos legais de trabalho e mudanças nas regras tributárias em todo o mundo.

Não obstante, a área de gestão de pessoas deve pensar no futuro, criando um ambiente de trabalho em que as pessoas tenham mais controle sobre como trabalham e melhor equilíbrio entre vida profissional e pessoal, decidindo escolher projetos motivados por paixão e propósito.

Programa de retomada deve ter foco nas pessoas

A pandemia de coronavírus mudou fundamentalmente a forma como vivemos e fazemos negócios e está acelerando a Quarta Revolução Industrial, alimentada por tecnologias inteligentes. Paradoxalmente, ela também mostrou o quanto as relações humanas são tão importantes para o andamento das organizações como as máquinas. Por isso, o foco no programa de retomada das organizações está nas pessoas. É o que relata o coordenador de aquisição de talentos das empresas não financeiras do conglomerado Alfa, Antonio Augusto Araujo.

“Primeiramente, a preocupação é com a saúde dos colaboradores, pois sabemos que, mesmo com as cautelas necessárias, há riscos de contaminação em massa”, explica. O gestor de pessoas analisa que esse olhar mais humano também faz sentido para as finanças das empresas, afinal “a produtividade pode ficar afetada com vários colaboradores afastados” em consequência da doença.

O executivo ainda pondera que, dependendo das atividades do negócio, reabrir pode significar prejuízo. “Os custos da operação podem não ser cobertos nos primeiros meses devido ao baixo número de clientes”, destaca.

Saúde x Finanças

Para Araujo, há uma necessidade financeira de retomada rápida. Por outro lado, existe também o receio de uma elevada taxa de contaminação entre os colaboradores repentinamente. Os líderes precisam fazer escolhas difíceis entre equilibrar a saúde de pessoas e a de suas economias.

E o líder de Talent Acquisition sabe como é difícil essa tomada de decisão. Ele tem a certeza de que a Covid-19 não é uma gripe comum, já que sofreu na pele as consequências do vírus. “Ver o mundo isolado é péssimo e a doença, em si, nos isola mais. Senti que somente juntos somos mais fortes”, enfatiza.

A afirmação de Araujo pode até parecer dicotômica em tempos de quarentena, mas faz todo o sentido do ponto de vista de gestão de pessoas. É preciso haver diálogo e união de todos para a tomada de decisões.

“Antes de ‘criarmos’ uma política para atender uma necessidade X ou Y, devemos entender o que é o problema sob a perspectiva de quem passa por ele”, analisa o gestor. Ele acredita que é missão do RH ajudar os negócios a se aproximarem das pessoas, seja cliente, seja interno, seja externo.

Muitas vezes, uma política única que engloba todos os funcionários não é a melhor resposta para o problema. Hoje, por exemplo, há funcionários que se sentem ainda inseguros para voltar ao trabalho, enquanto outros não.

É preciso garantir o regresso seguro daqueles que podem voltar ao trabalho presencial, mas é preciso também assegurar tranquilidade àqueles que, porventura, são do grupo de risco ou ainda têm filhos para cuidar e não têm com quem deixá-los.

Prioridades para líderes de RH na pandemia

Mesmo lidando com os desafios do aqui e agora – alguns líderes de RH na pandemia já estão implementando planos para a recuperação das organizações no pós-coronavírus. Transformar seus modelos de talentos, cuidar de pessoas e digitalizar os processos de todos os ecossistemas de RH são as prioridades pós-pandemia.

A rápida resposta da área de gestão de pessoas focará em quatro áreas importantes:

  • Saúde física e bem-estar;
  • Trabalho remoto;
  • Questões relacionadas a emprego e continuidade do trabalho;
  • Transformação digital.

Destacamos, abaixo, alguns pontos críticos que devem estar no radar dos líderes de gestão de pessoas relacionados aos quatro tópicos acima citados:

Saúde mental virá à tona

Ficar constantemente em casa tem seu preço quanto à saúde mental na quarentena. Com um aumento potencial de problemas vinculados ao psicológico, há uma apreciação crescente de sua importância e de como as organizações podem fornecer soluções, benefícios de emprego e programação para ajudar os funcionários nesse quesito.

Uso da tecnologia

Aprender a usar um novo sistema, software de comunicação ou ferramenta pode ser um desafio, e piora quando não é possível obter suporte imediato pessoalmente. Mas o isolamento nos ensinou a descobrir uma maneira de lidar com esses desafios.

Os líderes de RH estão confiantes de que a maioria dos funcionários expandirá seu conforto, capacidade e confiança com tecnologia de ponta. O que ajudará na implementação, de fato, da transformação digital nas organizações.

Diversidade será vista sob nova luz

Antes da pandemia, as organizações já começaram a observar que a diversidade  é um elemento-chave para o sucesso da empresa. O isolamento social e os debates raciais que sucederam a quarentena reforçaram ainda mais esse conceito. Em breve, a maioria das empresas perceberá que incluir perspectivas plurais e ter pessoas com diferentes capacidades contribuirá bastante para a organização.

Como resultado, veremos uma percepção aprimorada de como as pessoas podem levar o melhor para o trabalho – por meio de design inclusivo, novas políticas e práticas, além de abordagens distintas para o trabalho em equipe.

O trabalho se tornará mais flexível

As empresas implementaram sistemas e suportes tecnológicos para facilitar o trabalho remoto. As equipes estão descobrindo como colaborar a distância, melhorando sua capacidade de gerenciar com base em resultados e objetivos, e não com presença física.

Essa experiência, boa para alguns e ruim para outros, acelerará o debate de políticas mais flexíveis de home office e equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. E as empresas usarão essas armas na guerra de talentos, como destacado em uma matéria da Exame.com.

Abordagem da sua empresa mudará

Conduzir tarefas exclusivamente de forma virtual era novidade para muitos até março deste ano. Hoje, esse é o novo normal. Não sabemos por quanto tempo teremos de trabalhar remotamente. Portanto, a melhor alternativa será aprender maneiras eficientes de se conectar com os membros da equipe.

Essa eficiência aprimorada terá um impacto direto na velocidade com que as coisas serão feitas. Isso também reduzirá a burocracia, porque os líderes delegarão a tomada de decisões para aumentar a agilidade – resultando em maior capacitação dos funcionários.

Tanto nos sistemas de RH, quanto nos sistemas de resposta ao cliente, de desenvolvimento ou de fabricação, essa capacidade de respostas de prontidão terá um efeito positivo na força de trabalho do amanhã.

Aprendizado e a contratação serão radicalmente transformados

Esse novo normal no trabalho impulsionará outras maneiras de ensino e contratação de pessoal no ambiente virtual. Já vemos o movimento de empresas investindo em formatos e-learning e na aquisição de ferramentas para um processo seletivo totalmente digital.

Gostou da reportagem? Quer saber mais sobre os desafios do “novo normal”? Então não deixe de ler também conteúdo sobre quais são as competências pós-coronavírus.