Post de executivo viraliza após candidata recusar entrevista de domingo e gera debate sobre limites e disponibilidade no recrutamento

Qual seria sua reação se um executivo te convidasse para uma entrevista de emprego em pleno domingo? Toparia? Descartaria a oferta, ou ficaria em cima do muro? Pois essa situação, de entrevistar candidatos no fim de semana, foi amplamente discutida nas redes sociais após um post no Linkedin redigido por um cofundador de uma startup de marketing.

Na publicação que viralizou, o empreendedor expressa sua indignação após uma candidata recusar seu convite para uma entrevista no domingo. A resposta da profissional foi direta, conforme redigiu o executivo: “desculpe, não faço entrevistas aos finais de semana. Eu os reservo para relaxar. Pode ser segunda-feira?”. A resposta do confundador foi negativa: “Desculpe, não faço entrevistas de dias de semana. Eu os utilizo para trabalhar. Mas agradeço o seu interesse. Boa sorte”.

Post viral sobre entrevista no domingo

O post do empresário prosseguiu retrucando a atitude da candidata. “Eu não sei quem foi o guru milionário que recomendou que as pessoas reservassem 2/7 dos seus dias para não se dedicarem ao crescimento pessoal e profissional”. O CEO ainda afirmou que a candidatava estava se mantendo na zona de conforto, maior inimiga dos profissionais. “Se você pode se dar ao prazer de negar emprego em pura pandemia, melhor realmente deixá-lo para alguém que o queira e precise – até esse alguém ser você”, alfinetou.

O discurso foi sucinto – posts no LinkedIn não podem ultrapassar 1.300 caracteres –, mas as poucas palavras tocaram temas delicados à gestão de pessoas e provocaram milhares de reações – em sua maioria críticas.

Após a repercussão, o executivo resolveu apagar o post e fez uma declaração de desculpas. “Fiz duas coisas erradas: me comuniquei errado e achei que estava certo. Comentários me fizeram enxergar que eu já estive do outro lado da mesa”

“Colaboradores são pessoas e pessoas precisam de pausas. Até Deus descansou no sétimo dia”, criticou uma headhunter na rede social.

Ele acrescentou que já achou repugnante essa “falta de empatia” quando era candidato. “Cometi um erro que acredito que alguns fundadores cometem: esqueci de onde vim, e esqueci que não posso esperar das pessoas o que espero de mim mesmo (a não ser que as faça donas da empresa também – o que é meu objetivo) (…) Desculpe e obrigado a todos”, escreveu.

O empresário também reiterou que a vaga para sua empresa ainda está aberta e disse esperar dos candidatos: opiniões diversas; valores alinhados aos da empresa; tanta paixão pelo trabalho quanto pela vida pessoal.

Novamente, as frases curtas tocaram o dia a dia de profissionais de Recursos Humanos e gestores, visto que falam sobre liderança, falta de empatia, cultura, admissão de erros e valores.

Cultura da empresa desde o processo seletivo

A executiva de RH da VAGAS.com, Luciana Calegari, afirma que interações como essas dão indícios da cultura organizacional ainda no processo seletivo. “No discurso, a candidata já teve uma ideia de como seria trabalhar nessa empresa. Afinal, se há entrevista no domingo, imagina quando estiverem efetivamente trabalhando. É provável que o gestor peça que se trabalhe fora do expediente e de fim de semana”, explica.

É preciso ter empatia e um olhar humanizado“, afirma a executiva de RH Luciana Calegari.

Choveram comentários nos posts, tanto no que criticava a candidata quanto no pedido de desculpas. Muitos recrutadores aqueceram a discussão repercutindo a história e criticando a “cultura do trabalho acima de tudo”. “Até onde vai essa doença da produtividade 24×7 de alguns líderes. Colaboradores são pessoas e pessoas precisam de pausas. Até Deus descansou no sétimo dia”, questiona uma headhunter na rede social, gerando 2 mil comentários e 36 mil reações positivas.

“O processo seletivo diz muito sobre os valores da empresa. É nesse momento que o candidato deve ficar atento aos valores da empresa para comparar com seus próprios valores”, alertou outro profissional na redes social.

Limites e acordos

Mas é claro, há opiniões de todos os gostos. Alguns profissionais disseram que também foram entrevistados durante o fim de semana e trabalharam sábado e domingo, portanto, achavam natural esse tipo de escala.

Alguns comentaram também sobre a oferta e demanda de empregos devido à pandemia, a qual leva a situações extremas. “É preciso ter empatia e um olhar humanizado. As pessoas devem tomar cuidado para não julgar  e aproveitar o estado de vulnerabilidade dos outros durante crises”, ressalta a executiva Luciana Calegari.

Afinal, pode entrevistar candidatos no fim de semana?

A ciência já comprovou que pessoas descansadas performam melhor. Além disso, a visão romantizada de exagerar no trabalho é uma das principais responsáveis pelo aumento de doenças psicológicas, como o burnout na empresa. Segundo dados da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, o crescimento de benefícios de auxílio-doença relacionados à essa categoria chegou a 114,8% em 2017 e 2018.

Sobre entrevistar candidatos no fim de semana, em geral, recrutadores devem disponibilizar mais de data e horário para o agendamento. A conversa até pode ser conduzida aos fins de semana, desde que justificada pelo recrutador e acordada previamente com o candidato ou a candidata. “É necessário ter um cuidado e respeito com as pessoas. Ninguém sabe como elas vivem e o que têm como premissa”, destaca a especialista em RH da VAGAS.com.

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