Entender a relação entre Consciência Negra e RH é essencial para que empresas passem a adotar uma postura antirracista

Em novembro, o que as pessoas negras fazem e conquistam ganha mais projeção, por conta do dia da Consciência Negra. A data também é possibilidade para que as empresas passem a adotar uma postura antirracista – e, para profissionais de RH, visto que a fase do recrutamento de candidatos é um momento chave para colocar em prática o combate ao racismo.

Se no Brasil é fato que a maioria da população é negra, pois 56% se declaram pretos e pardos, segundo o IBGE, também é verdade que a cultura é permeada por expressões racistas que já deveriam ter sido eliminadas do vocabulário. Aliás, a discriminação racial é crime e reforçar estereótipos ligados a pessoas negras tem sido um comportamento repreendido cada vez mais – e até se tornado assunto na mídia. Com esses maus exemplos, podemos aprender como é importante tornar ambientes e experiências mais confortáveis para quem é negro, que já está exposto ao racismo cotidianamente.

Analisar como se dão os processos internos, por sua vez, é o caminho para identificar com clareza se há racismo no RH e de que forma, nas entrevistas de emprego, deve-se agir para que as expressões e posturas racistas sejam eliminadas.

Existe racismo no RH?

Existe racismo no RH, sim. Sobretudo, porque o racismo é estrutural no Brasil. É como se nossa sociedade fosse um prédio construído com tijolos em que a discriminação racial define lugares, acessos e experiências de vida diferentes para cada pessoa, dependendo da identidade racial que ela tem.

Mesmo após a abolição da escravatura, em 1888, mantivemos os pilares de segregação racial – negros eram associados a estereótipos negativos, a posições de subalternidade. Isso significa que vivemos em uma sociedade racista, com instituições, mecanismos e procedimentos que não garantem equidade racial. E, para desfazer essa afirmação, só expondo esse problema.

“Quando a escravidão acabou, não houve programa de reparação que reinserisse as pessoas escravizadas na educação. O resultado disso é que desde sempre as pessoas brancas passaram a se acostumar a ver negros em lugares subalternos”, comenta Daniele Mattos, sócia cofundadora da empresa Indique uma Preta, consultoria de conexões entre profissionais negros e o mercado de trabalho. “Por sua vez, há seleções de emprego nas quais são exigidos dois idiomas, formação em faculdade de ponta, que só pessoas com alto poder aquisitivo acabam entrando, por exemplo. Com esse recorte, apenas uma pequena parcela da sociedade é contemplada, que geralmente não é formada por pessoas negras”.

Vaga racista

É possível que, mesmo com todos os cuidados para evitar preconceito no recrutamento, a empresa esteja oferecendo uma vaga racista. Isso acontece quando o recrutador desconsidera as desigualdades estruturais que atingem pessoas negras que estão à procura de emprego, quando julga os dados profissionais e pessoais do candidato com o viés inconsciente de preconceito racial.

Um exemplo prático é estabelecer parâmetros de que só candidatos que fizeram intercâmbio em outros países podem ocupar determinada vaga que a organização oferece. Escolher currículos que sejam de faculdade A ou B – sem dar oportunidade àqueles formados em outras instituições – também pode configurar racismo em relação às pessoas negras, que estão colhendo, historicamente, os prejuízos de um sistema educacional que as segrega.

Olhar para diversidade e questões raciais

Mudar essa perspectiva na área de recursos humanos não é tarefa fácil, mas merece atenção de profissionais de RH, além de gestores e diretoria. Treinamentos com pessoas que estudam a questão racial no Brasil e com empresas que prestam consultoria são uma saída.

“Com constantes treinamentos, profissionais de RH conseguem valorizar outros tipos de narrativa. Isso não é abaixar a régua, mas trazer novos pontos de vista para as empresas. E diversidade sempre gera mais inovação”, aponta Daniele, que é relações-públicas, com foco em Diversidade e Especialista em Gestão Estratégica da Comunicação Organizacional pela USP.

Neste sentido, veja o que fazer:

  • Promover treinamentos e conversas sobre questões raciais para que o time de RH tenha repertório do que é ser negro no Brasil;
  • Estimular diálogo e comunicação que sensibilizem recrutadores para que diminuam o viés inconsciente na hora de selecionar candidatos;
  • Acrescentar informações das políticas antirracistas e de diversidade que a empresa tem no anúncio das vagas;
  • Furar a bolha das indicações/networking, na qual funcionários brancos só recomendam funcionários brancos, ou pessoas que frequentaram a mesma faculdade indicam candidatos com experiências de vida muito parecidas;
  • Procurar candidatos que tenham um ponto de vista antirracista na vida, entendendo que o combate ao racismo é um caminho construído;
  • Manter empenho na contratação de equipes de RH mais diversas, o que vai refletir na visão e na relação de recrutadores em relação aos candidatos.

 

Expressões racistas para banir do vocabulário

As expressões racistas, literais ou não, também devem ser eliminadas do ambiente de trabalho. Assim, a diversidade e a equidade racial não ficam só no papel.

Portanto, não diga frases como:

  • “Mesmo negra, ela é uma pessoa _____ [acrescentando um adjetivo positivo]”
  • “Ele está aqui para cumprir as cotas”
  • “Amanhã é dia de branco”
  • “Aquele funcionário tem um pé na cozinha”
  • “Com essa ideia, a empresa vai denegrir sua imagem”
  • “Ele não é negro, é moreno”

 

E as que tenham contextos históricos relacionados à escravidão, a estereótipos negativos que recaem sobre mulheres e homens negros.

Falas que tenham cunho sexual, além de configurarem assédio sexual, devem ser banidas das relações profissionais com pessoas negras. Caso tenha dúvidas sobre se uma palavra ou comentário é racista, investigue em fontes confiáveis e informativas nas redes sociais, como o Instagram do Instituto Identidades do Brasil (id_br) , o da Indique uma Preta, e o site do Instituto da Mulher Negra, o Geledés.

Quer se informar mais sobre o tema? Então confira porque vale a pena criar processos seletivos exclusivos para contratar negros.