Ferida aberta na sociedade brasileira, a discriminação contra negros também pode atravancar as empresas. Veja soluções para evitar o problema e dar suporte aos funcionários

Podia ser apenas mais uma celebração. Mas muito além de vibrar com a vitória, a tenista Naomi Osaka e o piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton quiseram levantar a voz contra a discriminação racial. Com protestos no pódio, eles mostraram que o debate trazido à tona, em maio, com o assassinato de George Floyd, saiu do cenário político e policial para invadir as arenas esportivas e o mundo corporativo. Mas como apoiar colaboradores em movimentos contra racismo e injustiça social? O RH precisa estar preparado para isso.

O preconceito (velado ou não) contra a população negra, embora seja uma questão importantíssima, ainda não é muito discutido nas empresas. Poucas organizações têm políticas de cota racial ou políticas mais inclusivas para as minorias. E não investir nessa diversidade e deixar de investir na inovação de sua corporação e ver a rentabilidade dela cair.

Neste artigo, vamos dar dicas para que a área de gestão de pessoas levante essa bandeira, em conjunto, com as lideranças da organização.

Para além do debate

Falar sobre diversidade nas empresas no Brasil é debater a representatividade demográfica da sociedade brasileira dentro do contexto empresarial. No Brasil, 55,8% é composta por negros. No entanto, um levantamento do Instituto Ethos, que compara números de 2010 e 2016, mostra que em 2010, os negros representavam 5,3% da alta liderança. Seis anos depois, eles eram 4,7%.

O que esses dados revelam? Que a maior parte da população brasileira ainda é sub-representada em cargos de liderança no país. Apesar do crescimento desse tipo de preocupação, pouco tem sido feito na prática pelas organizações. Para além do debate, é preciso ter uma postura combativa contra o preconceito.

O RH tem a responsabilidade de ser inclusivo, olhar para questões de diversidade com atenção e construir ambientes mais justos e respeitosos. Para apoiar colaboradores em movimentos contra racismo e injustiça social, apontamos aqui alguns caminhos para os gestores de Recursos Humanos. Acompanhe:

Crie um espaço seguro

De acordo com Matt Bush, líder de Culture Coaching no Great Place to Work, em seu artigo “O suporte que você precisa oferecer aos seus empregados negros hoje”, em tradução livre para o português, o mais importante é criar um espaço seguro no ambiente de trabalho para atender aos colaboradores.

Não espere que um funcionário comente que se sente excluído e marginalizado. Esteja pronto para recebê-lo e ajudá-lo. Mostre que você está do lado deles. Ofereça auxílio e mantenha a porta aberta para que eles possam recorrer ao RH sempre que necessário.

Abrace, de vez, a diversidade

Conforme já mencionado nesse artigo, nas 500 maiores empresas brasileiras, segundo estudo do Instituto Ethos, somente 4,7% dos cargos de liderança são ocupados por negros e apenas 0,4% por mulheres negras. Tais números apontam para o abismo da desigualdade existente em um país cuja mais da metade da população é formada por afrodescendentes.

A saída para apoiar colaboradores em movimentos contra racismo e injustiça social é investir em uma cultura corporativa plural e inclusiva. Construa um ambiente com lideranças mais diversas e invista na mão de obra negra. Faça da ascensão profissional dessa parcela de colaboradores uma prioridade. Recrute, desenvolva e promova negros e negras. E, então, dê voz a eles dentro da empresa para combater mais ativamente o racismo.

Promova debates

Aproveite este momento em que o debate racial está em alta para levar palestras, workshops ou mesmo rodas de conversa ao seu ambiente de trabalho. Em meio a metas e objetivos financeiros, reserve um tempo para abordar com sensibilidade o assunto. Convoque especialistas sobre a temática racial e incentive exercícios empáticos entre seus funcionários. A comunicação interna também pode ser usada para disseminar a diversidade.

É importante que, ao mesmo tempo em que realizem essa troca de ideias na empresa, os líderes de RH averiguem como anda a saúde mental e a motivação de seus funcionários negros. Escute o que eles têm a dizer e aceite sugestões para tornar o ambiente de trabalho mais amigável.

Treine gestores para lidarem com questões raciais

Muitas vezes, o racismo não é demonstrado por ofensas diretas, mas por meio de comportamentos e comentários discretos. Para os colaboradores negros, não é nada fácil denunciar esse tipo de violência, então deixe a porta aberta para o diálogo e o acolhimento.

Além de compor um espaço seguro, a outra medida que deve ser tomada é o treinamento de gestores para que eles fiquem atentos a essas microagressões e saibam lidar com suas equipes. É preciso deixar claro que atitudes preconceituosas não serão toleradas.

Priorize a saúde mental

Esforce-se para criar uma cultura de cuidado no local de trabalho e abra mais espaço para aconselhamento. Prepare-se para prestar ajuda e indicar profissionais de saúde mental, ou mesmo conceber um ambiente para massagens e terapias alternativas dentro da empresa para ajudar na dissipação do estresse.

Faça valer políticas antirracistas

Crie uma política de não tolerância com atitudes racistas. Já nos processos de contratação e integração, esclareça que o preconceito vai contra os valores da empresa e tais comportamentos serão passíveis de punição. Evite práticas discriminatórias desde o recrutamento, como esclarecemos em um artigo sobre viés no R&S.

Os líderes devem também orientar os colaboradores a adotarem uma conduta consciente e respeitosa com os colegas. Vale ainda realizar, de tempos em tempos, eventos e ações para combater o racismo e tornar o ambiente de trabalho mais saudável e colaborativo.

Apoie-se nas novas gerações

Em seu artigo “Racismo é um vírus de 400 anos”, Michael. C. Bush, CEO of Great Place to Work, revela que os negros sempre carregaram um grande fardo nas costas e aprenderam a seguir em frente no ambiente de trabalho apesar de todo o sofrimento. Mas com o caso George Floyd, uma postura de “já basta” e “temos que fazer alguma coisa” foi construída pelos líderes das corporações.

A grande esperança do especialista está nas gerações Z e Millennial, já que elas cobram mudanças imediatas, com protestos de apoio à diversidade. Por isso, na sua companhia, busque suporte e inspire-se nos jovens para implantar políticas mais inclusivas.

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