Não se trata mais de uma guerra entre online e offline, a integração dos dois mundos ditará o futuro do ambiente e das relações de trabalho

Como consumidores, nos acostumados aos ambientes mistos, os chamados phygital, que incorporam elementos do ecossistema on-line no ambiente físico e vice-versa. Fazemos check-in para um voo, agendamos virtualmente uma consulta médica, solicitamos pelo celular um carro para nos levar de um ponto ao outro e experimentamos roupas num provador virtual para posteriormente comprá-las na loja física.

Um estudo da Salesforce de 2017, com mais de 2 mil consumidores dos EUA, descobriu que 80% pesquisaram produtos online, mesmo quando pretendiam fazer suas compras em lojas físicas. As experiências phygital, portanto, estão incorporadas às atividades de nosso dia a dia sem sequer percebermos. Os comportamentos digitais mudaram nossas expectativas em relação às marcas com que interagimos e aos espaços físicos que ocupamos.

Mas, porque essa realidade demorou para ser adotada nas organizações? A transformação digital nas empresas caminhava a passos lentos até antes da pandemia por coronavírus. Ela funcionou como uma espécie de acelerador, visto que o trabalho em casa ainda era algo fora da realidade para muitas corporações.

Todavia, apos muitas organizações serem desafiadas a partir para o mundo virtual, futurologistas preveem o design de ambientes de trabalho híbridos entre o digital e o físico para compreender novas demandas de profissionais pós-pandemia. Neste artigo, vamos explicar um pouco sobre essa nova concepção, benefícios e cuidados que devem ser observados na empresa phygital.

Empresa phygital e adaptação

A revolução digital e as dinâmicas sociopolíticas contemporâneas exigem uma reflexão sobre a forma como trabalhamos. As pessoas que cresceram com as mídias sociais, ou que se adaptaram as experiências físicas e digitais, esperam que suas vidas sejam ricas e dinâmicas e desejam que os espaços físicos reflitam isso.

No local de trabalho, elas desejam um espaço que os ajude a se sentirem conectados com seus colegas de trabalho, sem que isso represente um deslocamento de uma ou mais horas entre o serviço e o escritório. Os trabalhadores pós-pandemia exigem também mais transparência e colaboração entre equipes.

Neste período de restrições sociais, espaços e instrumentos de trabalho, métodos e hierarquias, lugares e distâncias foram questionados. Além e ao redor do trabalho, há uma mudança contínua de paradigma que envolve quase todos os aspectos da cultura e da sociedade.

A maneira como tratamos e gerenciamos processos, produtos e conhecimento está evoluindo com o auxílio de novas possibilidades tecnológicas. Da competição à colaboração e cooperação; da centralização ao compartilhamento de informações na rede; de estruturas piramidais a bases horizontais; do segredo profissional à transparência; de restrições de propriedade intelectual a iniciativas de código aberto gratuito

Mas a tecnologia por si só não é suficiente para fornecer uma experiência dinâmica. Para ser eficaz, a tecnologia digital deve ser usada a serviço do usuário – seja ele um funcionário, cliente, viajante ou fã de esportes.

Nova realidade de ambientes mistos

Nesta retomada dos trabalhos, é importante, portanto, que as empresas ofereçam um ambiente de execução de tarefas que inclua experiências mistas entre o digital e o físico, ou seja, que ela se torne uma empresa phygital. Ao remodelar, dessa forma, a estrutura de trabalho, as empresas saíram do “velho normal” para enfrentar uma nova realidade, caraterizada pela:

  • substituição das hierarquias por estruturas de rede;
  • substituição do controle pela auto-organização e autonomia e
  • aumento das estruturas de cooperação entre as áreas

Como gerir uma empresa phygital?

Pode parecer questionável que uma empresa que crie um mundo digital para o trabalho também se concentre no físico. Afinal, os avanços da tecnologia tornaram mais fácil para as pessoas trabalharem em qualquer lugar, a qualquer hora.

Contudo, ao longo da jornada do isolamento social, foi possível analisar que nem todos se adaptaram ao trabalho home office, assim como outros já não conseguem viver sem o trabalho remoto. Ambientes flexíveis e colaborativos precisam levar em conta diversos estilos de trabalho e personalidades para promover a inovação.

Afinal, apesar de nossa dependência da tecnologia uma necessidade básica subjacente permanece: como humanos, ansiamos por conexão e relacionamentos significativos, inclusive no trabalho. A promoção de ambientes phygital pode ser uma resposta para esse tipo de situação.

Mas novamente nem todos os perfis vão também se acostumar a essa nova era, portanto, antes de meter os pés pelas mãos, fique atento às dicas que selecionamos:

Participação de todos

Quanto mais intensa é a participação dos colaboradores no projeto de redesenhar o ambiente de trabalho, maior será o benefício para a empresa. A integração do colaborador deve, portanto, ocorrer em todas as fases do projeto.

Essa foi a tática usada pela corretora de investimento XP. Antes de anunciar que seus colaboradores de escritórios permaneceriam em home office até dezembro, a empresa rodou uma pesquisa para envolvê-los no processo e repassar a tomada de decisão para eles. O mesmo ocorreu na própria VAGAS.com, que pesquisou sobre os anseios de seus colaboradores para decidir como seria o novo modelo de trabalho e deu total liberdade para retornarem fisicamente ao escritório no futuro ou continuarem trabalhando remotamente.

Escolha da integração

É aconselhável permitir que os usuários expressem livremente as mudanças, ideias e sugestões, bem como deixá-los escolher de acordo com suas preferências e necessidades.
Em outras palavras, o RH terá de implementar de vez o employee experience, observando as vontades e carências de cada funcionário.

Participação de especialistas e pessoas-chave

A experiência dos usuários envolvidos nos projetos é repetidamente citada como fator de sucesso crucial. Em particular, especialistas em ambiente de trabalho e pessoas-chave na organização precisam estar envolvidas no processo.

Esse grupo de usuários tende a rejeitar novidades da empresa phygital que surgiram sem sua participação. Portanto, faça com que ele participe do projeto e seja promotor desse novo ecossistema, e não detrator.

Como é a interação físico-digital?

O assunto é tão incipiente no ambiente de trabalho que há pouca literatura que aborde o tema de forma mais densa. Todavia, já há aplicações práticas que podem sugerir pistas de como será esse ecossistema misto ainda desconhecido da maioria.

Por exemplo, recentemente, durante a competição de tênis US Open o canal de TV europeu Eurosport surpreendeu os fãs de tênis com uma grande novidade. Sem poder ter repórteres presentes para conseguir uma palavra dos principais jogadores do mundo, a equipe produziu um estúdio virtual e os tenistas foram entrevistados ao vivo, sendo representados em holograma, como se estivessem juntos com os apresentadores.

A tecnologia digital twin, ou gêmeo digital, em português, também promete fazer a integração dos dois mundos. A ideia por trás do gêmeo digital é criar uma réplica virtual, completamente fiel a um objeto físico, de modo que esse modelo digital seja capaz de fornecer todas as perspectivas e dados importantes sobre a utilização do produto. Em outras palavras, trata-se de um holograma em tempo real de um produto ou objeto, o que permitiria, por exemplo, um trabalhador consertar uma máquina virtualmente, do conforto da sua casa.

Apesar da novidade do assunto, os benefícios de desenhar coletivamente espaços mistos de trabalho, que possibilitam a melhor interação entre usuários contando com o conforto físico e a camada digital, já são amplamente conhecidas:

Inovação

A inovação requer, em primeiro lugar, um ambiente inspirador para fornecer um estímulo experimental à criatividade. Acredita-se que em ambientes mistos é possível alimentar a criatividade por meio de uma série de atividades que inspiram o cérebro e o estimulam a ultrapassar fronteiras e criar grandes ideias.

Bem- estar

Um espaço de trabalho deve fornecer um alto nível de conforto para as pessoas que o utilizam. O ambiente deve ser equipado com todas as facilidades que garantam o melhor ambiente para cada situação e necessidade particular.

Nesse sentido, a empresa phygital também ganha pontos, afinal ele une o melhor dos dois mundos. O colaborador pode ter experiências virtuais e presencias, de acordo com a necessidade dele.

Networking

No formato de trabalho phygital também será possível ampliar o networking com colegas de outras áreas. Ademais, a troca de ideias entre os participantes desse novo ambiente de trabalho, irá ajudar a organização a ampliar as conexões e compartilhar o conhecimento de forma mais orgânica.

Quer saber mais das novidades da área de gestão de pessoas no contexto do “novo normal”? Não deixe de ler, portanto, um artigo sobre as prioridades dos líderes de RH na pandemia.